Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

domingo, 14 de abril de 2019

Whindersson, depressão e o pensamento religioso fanático


É incrível que em pleno século XXI a gente ainda precise explicar por A + B que depressão não é falta de fé, falta de Deus ou coisa do tipo... Falo isso pelo fato de que, neste Brasilzão imenso, por mais que ainda tenhamos grandes bolsões de pobreza e dificuldades de acesso à comunicação, a grande maioria da população brasileira hoje ainda tem acesso à internet e várias outras fontes de informação.

Recentemente saiu uma notícia nas redes sociais de que o humorista Whindersson Nunes declarou estar “sem vontade de viver”, com “tristeza há alguns anos”, desabafando com os fãs, o que PODE SER sinal de depressão... bastou isso para eu presenciar uma quantidade enorme de comentários do tipo “ele está assim porque falta Deus”... e um monte de gente concordando... Ai meu pâncreas psicológico!

Dando uma leve “stalkeada” nos perfis que concordam com esta afirmação, é fácil perceber a expressão de uma rigidez psicológica que se manifesta por meio da expressão de tais pérolas preconceituosas... E não basta você mostrar para a pessoa as evidências, os estudos, mostrar, argumentar, falar: “ei cara, sou psicólogo, estudei isso por anos, tenho vários estudos e pesquisas que embasam o que estou falando”... a pessoa já fala “isso é falta de Deus no coração”... PUTA QUE PARIU! (Sem censuras!)

Me desculpe, leitor(a), mas SÓ COM UM GRANDE PUTA QUE PARIU para dar conta de tal postura! Se fosse somente falta de conhecimento, tudo bem, ninguém é obrigado a saber de tudo, mas em muitos casos isso chega ao limite da perversidade: a pessoa não faz a menor ideia do que está falando e já sai rapidamente com o dedo em riste para apontar a solução de “colocar mais Deus no seu coração”.

Para tentar mostrar o quanto isso é absurdo, vamos a alguns detalhes, e como eu sou pesquisador em PSICOLOGIA DA RELIGIÃO, eu vou usar a Bíblia, que 80% dos brasileiros dizem acreditar, para mostrar a falta de sentido destas falas.

Enquanto modelo filosófico, o cristianismo é claro em apontar a separação entre corpo, alma e espírito:

“Que o próprio Deus da paz vos santifique integralmente. Que todo o vosso espírito, alma e corpo sejam mantidos irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.” I Ts 5:23

Ou seja, entendia-se já no século primeiro que corpo era uma coisa, alma era outra coisa e espírito outra, totalmente diferentes entre si.  E no próprio evangelho de Mateus, dizia-se que Jesus curava os enfermos, os loucos e os “possessos por demônios” (sic).

“E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo.
E a sua fama correu por toda a Síria, e traziam-lhe todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos, e os paralíticos, e ele os curava.” Mt 4:23,24

Quando o versículo fala em “lunáticos”, essa era a representação da época para “pessoas com doenças mentais”, ou pessoas que possuíam dificuldades psicológicas graves, e elas não estavam consideradas como físicas ou “endemoninhamento”. Não seria estúpido afirmar hoje que uma pessoa está com dor de dente por causa do demônio ou por falta de Deus?! Então porque algumas pessoas ainda insistem em afirmar isso para quem tem problemas de origem psicológica.

A depressão sempre existiu, mas nós somente a identificamos como doença recentemente. Há poucas décadas é que profissionais sérios, da psicologia, psiquiatria ou das ciências da saúde, em geral, tem trabalhado para compreender como se formam e se comportam as “doenças mentais” ou qualquer “transtorno” ou dificuldade psicológica grave. Por isso, o nome depressão foi dado para significar um conjunto de dificuldades que se organizam de uma forma muito específica por meio de sintomas na vida de uma pessoa.

Depressão não é uma simples “tristeza”, é um estado físico, emocional e social de falta de energia, desesperança e desânimo profundo. Um estado de angústia mortífero em alguns casos, que não tem a menor coisa a ver com “causas espirituais”. Exemplos disso são que muitos personagens religiosos passaram por dificuldades profundas, angústias mortíferas, ou mesmo a depressão que hoje conhecemos.

Antigamente, antes de termos a psicologia e a medicina enquanto ciências que estudam estes fenômenos psicológicos, também existia depressão, ela só não tinha este nome. Vamos aos exemplos bíblicos.

Davi foi um dos maiores expoentes da “angústia de morte”:

“Os cordéis da morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza” Sl 116:3

“Tristezas do inferno me cingiram, laços de morte me surpreenderam” Sl 18:5

Davi foi um exemplo de personagem perseguido, entristecido e amargurado em uma parte de sua vida, e se formos fazer um paralelo com o que conhecemos como depressão na atualidade, certamente ele seria um grande candidato a esta.

Outra personagem bíblica que parece ter passado por estado depressivo foi Noemi, sogra de Rute, que após ter perdido seu esposo e dois filhos para a fome, retornando para a sua terra acompanhada de sua nora, relata o seguinte:

“Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara; porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso” Rt 1:20

O profeta Elias também parece ter passado maus bocados, pois depois de uma longa jornada de enfrentamentos com a rainha de Israel, desanimou a ponto de pedir a sua morte para Deus:

“Ele, porém, foi ao deserto, caminho de um dia, e foi sentar-se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais” 1 Rs 19:4

Enfim, estes são apenas exemplos de personagens bíblicos que passaram por angústias psicológicas tão profundas que, olhando com o que temos hoje disponível nas ciências, poderíamos comparar com sintomas do comportamento depressivo.

Eu já disse em um texto anterior (Síndrome do Power Ranger Gospel) que os crentes (no sentido geral) precisam parar de ter o pensamento mágico que, a partir do momento em que passam a acreditar em Deus, se tornam indestrutíveis... A própria Bíblia é clara que “o que acontece ao justo, acontece também ao ímpio” (Ec 9:2)..

Enfim, moral da história, tanto os crentes quanto não crentes estão sujeitos à depressão... ela é uma moléstia relativamente comum na atualidade, e suas origem não tem nada a ver com a espiritualidade. Ela se origina no entremeio de fatores sociais (perdas, sentimentos de inacessibilidade, sentimentos de desesperança, dentre vários outros...) e biológicos (dificuldade na produção e ou captação de neurotransmissores como a dopamina, serotonina, noradrenalina, etc).

No fim, a fala de que, a depressão só se dá pela falta de Deus acaba por agravar ainda mais o problema: a pessoa que está passando por esta dificuldade acaba por sentir-se incompetente, e aprofunda-se em tristeza, raiva, medo e/ou desesperança, que são sentimentos perigosos e comuns para quem está em depressão. Por isso, não diga que depressão é falta de Deus, pessoas genuinamente religiosas podem também sofrer deste mal. E quando você fala isso, na verdade, está sendo mais um vetor de maldade do que do amor ao próximo, pense nisso.

Torço para que tudo saia bem com o Whindersson, e como acredito em Deus, peço para que Ele o abençoe e que lhe dê sensibilidade para buscar ajuda com um bom profissional da psicologia. E quanto a nós, que cá estamos labutando com a psicologia, nos resta tentar levar um pouco de conhecimento para desconstruir essas crenças disfuncionais que se tornam deletérias para sociedade: depressão não é falta de Deus! Sacou?!

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Imagem: Reprodução Instagram Whindersson Nunes

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Sobre o autor:
Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Brasil), com formação em Terapia de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Goias (Brasil). Doutorando em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (Brasil). Possui formações pela Fundación Botín (Espanha), Fondattion Finnova (Bélgica), Brown University e Harvard University (EUA). Psicólogo clínico, pesquisador em psicologia da religião. Diretor do Instituto Psicologia Goiânia.

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