Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Síndrome do Power Ranger Gospel


O título deste texto, ainda que engraçado, não tem a menor intenção de soar ofensivo, se for isso que você está pensando, mas o de demonstrar um tipo de sofrimento psicológico que afeta uma parcela significativa de pessoas que procuram o consultório de psicologia e que em muitos momentos não conseguem encontrar respostas às suas perguntas, e por pensarem que por possuírem uma fé em algum deus, devem sempre ter uma vida feliz, próspera e livre de problemas.

Por mais que se expresse em diferentes graus, o Brasil é um dos países mais religiosos do mundo: 64,5% da população é católica, 22,2% evangélica, 2% espírita, e apesar de as outras religiões não pontuarem significativamente no Censo 2010 do IBGE, o país é ninho de uma das maiores diversidades religiosas do planeta.

Os evangélicos, por exemplo, são a parcela da população que mais cresce no país, e se expressam por meio de várias denominações: algumas vão das mais históricas e tradicionais, outras das mais pentecostais ao neopentecostalismo. A questão é: existem traços culturais e/ou padrões de comportamento destas populações que são influenciados por fatores religiosos? Sim! É óbvio que sim!

O problema é que os fatores religiosos da formação de personalidade ou de padrões de comportamento raramente são estudados na psicologia, por simples preconceito pessoal ou acadêmico em muitos momentos, ou mesmo pelo desconhecimento das possibilidades: existe um ramo inteiro do conhecimento psicológico, chamado de Psicologia da Religião, que tem como objetivo estudar como se forma e se expressa o comportamento religioso dos indivíduos e grupos.

Justamente por entender um pouco deste assunto, depois de alguns anos de estudos e pesquisas, é que pude perceber na interface com a psicologia clínica, um tipo de padrão de comportamento muito comum entre os religiosos mais “pentecostais”, sejam católicos, evangélicos ou espíritas: o pensamento mágico de que por terem a fé A ou B se tornaram automaticamente imunes à algumas intempéries da vida.

Um exemplo clássico disso é o preconceito de uma parte de religiosos que pensam que depressão é “falta de fé”, e ainda depois de ouvirem padres, pastores e outros líderes religiosos dando seu testemunho de que precisaram de apoio psicólogo, geram pensamentos de que “talvez o pastor estivesse em pecado, afastado de Deus”. Isso é relativamente comum e assustador, de um ponto de vista técnico.

Mas como a gente que é “psicólogo da Silva” pode entender estes comportamentos? Tudo isso se deve a dois fatores: 1) Teologia distorcida; 2) Marketing de massa. O fator número 1 diz respeito à repetição contínua de frases como “somos mais do que vencedores em Cristo Jesus”, “em Deus não há crise”, “Tudo posso n’Aquele que me fortalece” ou “Deus já decretou a vitória”, etc, etc, etc. Nós sabemos que nossos pensamentos são indissociáveis da nossa fala, e este tipo de repetição gera um pensamento mágico de indestrutibilidade que não se confirma na vida cotidiana, gerando um óbvio resultado de sofrimento psíquico na maioria das vezes. E, em relação ao fator 2, é preciso entender que existem muitas denominações religiosas que possuem marketing e interesses (até mesmo comerciais) bastante claros: mostrar para as pessoas que depois de ter entrado para aquela congregação a vida da pessoa se transformou em um passe de mágica.

Uma fé saudável é aquela que ajuda a pessoa entender que acreditar em Deus, Jesus, Buda, Maria, Maomé não significa ter um passaporte automático que te transporta para uma Disneylândia psicológica ou espiritual – a vida é um lugar de aprendizagem, e esta, muitas vezes, é recheada de angústia, dor e sofrimento. Repare que não estou escrevendo isso para desfazer da fé de ninguém, pelo contrário, a psicologia pode ajudar as pessoas a terem uma fé mais saudável.

A questão é que a gente precisa sempre lembrar de nossa condição humana e reconhecer as nossas dificuldades, saber que o sofrimento, a dor, dificuldade, as dúvidas e confusões virão em nossa vida, inevitavelmente. A questão é que podemos passar por tudo isso com uma postura aberta à aprendizagem e ao contato com o outro: será necessário pedir ajuda, “compartilhar as cargas”, pois o amor, o afeto, tem um poder curativo incontável.

Desta forma, o objetivo deste texto é lembrar que, mesmo que acreditemos piamente em algo, com sinceridade e bondade de coração, é preciso lembrar que a fé se aperfeiçoa também na dificuldade, e que é necessário ter uma postura empática para com a vida. Se você está sofrendo por algo, não se culpe, pode não ser “falta de fé”, pode ser apenas falta de perspectiva. E por isso a nossa missão, enquanto psicólogos é, mesmo que não acreditemos em nenhuma vírgula do que você acredite, respeitar e fazer o possível e o melhor para entender, acolher e te ajudar a aperfeiçoar, com toda ética, técnica, amor e cuidado.

Por isso, não tenha medo do psicólogo, assim como você não é um Power ranger, a gente também não é um vilão de desenho animado, e podemos te ajudar bastante. Boa sorte, e um abraço!
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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos (CRP 09/9447), psicólogo graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Brasil), com formação em Terapia de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Doutorando em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (Brasil), com formações em Gestão e Empreendedorismo pela Fondattion Finnovarregio (Bélgica), Fundação Getúlio Vargas (Brasil), Fundação Estudar (Brasil), Brown University (EUA) e Harvard University (EUA). Diretor do Instituto Psicologia Goiânia. Conselheiro do Conselho Regional de Psicologia, onde preside as Comissões de Psicologia Clínica e de Psicologia Organizacional. Pesquisador em Psicologia da Religião. Atende adultos, casais, famílias e grupos com ênfase na Teoria da Complexidade.

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