Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Cristãos que sofrem


Infelizmente, algumas igrejas no país, especialmente aquelas de ramo pentecostal e neopentecostal possuem um discurso muito triunfalista em relação à vida, e isso é muito danoso para a maioria da população de um país que ainda carece de muitos recursos, tanto financeiros, quanto afetivos e educacionais.

Se você já ouviu uma destas frases, ao freqüentar uma igreja, você vai entender do que eu estou falando:

“Somos mais do que vencedores em Cristo Jesus”;
“Não estamos em Crise, estamos em Cristo”;
“Em Deus não há depressão”;
“Jesus nos chamou para reinar em vida”;
“Eu comerei o melhor desta terra”;
“Onde eu colocar a planta do meu pé eu conquistarei”.

Este é um conjunto de frases de efeito que são ditas nos púlpitos das igrejas brasileiras que, desprovidos de um contexto interpretativo da Bíblia, livro de fé dos cristãos, causam mais problemas do que geram algum tipo de iluminação espiritual. Mas é possível uma pessoa acreditar genuinamente em Deus e sofrer? É CLARO QUE SIM! E quero mostrar por meio de um conjunto de argumentos lógicos, e ainda vou citar os versículos da Bíblia que são ignorados pela maioria dos líderes religiosos.

“Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”
Esta é uma passagem bíblica registrada no evangelho de Lucas 20:25, onde a tônica da mensagem é a necessidade de se fazer separação entre as coisas espirituais das coisas terrenas: ora, quão atual ainda é esta mensagem?! Existe muita gente que ainda confunde as coisas, atribuindo causas espirituais para coisas que são psicológicas.

O que tem de gente dentro das igrejas que ainda não fez a separação entre coisas psicológicas e coisas espirituais não está no gibi! O próprio Apóstolo Paulo no século I, lá por volta do ano 40 d.C. já fazia a separação entre corpo, alma e espírito:

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” 1 Tessalonicenses 5:23

Ora, se o próprio Paulão de Tarso, estudado na literatura grega da época já separava o “joio do trigo”, porque você hoje, cheio de recursos tecnológicos e com conhecimento de sobra mão pode seguir o exemplo?

O homem tripartido
Sim, os hebreus de antigamente tinham uma representação psicológica a respeito do homem. Eles não espiritualizavam todas as coisas. Desde Moisés, que escreveu o livro de Gênesis por volta de 1400 a. C., já tinha uma ideia de que o homem era constituído de 3 partes: o corpo físico, em que faz alusão ao barro ou pó da terra; o espírito, que era composto de ar, em alusão ao sopro divino; e a alma, como resultado do encontro entre corpo e espírito.

“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” Gênesis 2:7

Ressalto que, no hebraico original deste texto, a palavra utilizada para “sopro” é a mesma para “espírito” (heb.: ruah). Então, há quase 3500 anos, os hebreus já tinha noção de que há uma separação clara entre espiritualidade e psiquismo. Mas, como o mundo da voltas...

... assim como muitos teólogos desprezaram a existência de um psiquismo humano, a ciência, em seu advento acabou por ignorar a possibilidade da existência de uma substância ou de um ente virtual diferente daquilo que se conhece por mente, consciência, inconsciente, alma, ou coisa do gênero. Os primeiros filósofos do mundo viam o homem em três partes, os últimos viam corpo-mente, em uma clara herança do dualismo cartesiano.

Mas hoje, feliz ou infelizmente, já existem correntes de pensamento filosóficas que adentraram a psicologia dando-nos a possibilidade de pensar o homem também como um ser espiritual. Mas como este assunto é bem longo, vou deixa para outro momento.

O homem e o sofrimento
O tema do sofrimento não é novo nas discussões a respeito de Deus. O próprio Moisés, ao escrever o livro de Gênesis, na narrativa sobre a expulsão do paraíso, fala sobre Deus amaldiçoando a humanidade ao sofrimento:

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. E a Adão disse: Porquanto destes ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida” Gênesis 3:16,17

Ou seja, a teologia do pecado nos fala que a humanidade foi condenada ao sofrimento. E a teologia da graça nos fala que a redenção veio por meio de mais sofrimento:
“Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” Romanos 5:18

Logo, o sofrimento de Cristo veio para que, espiritualmente cessasse o sofrimento humano. MAS...
Isso não diz respeito ao sofrimento PSÍQUICO! Veja só:

“Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” João 16:33

“Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições” Hebreus 10:32

“Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” 1 Pedro 5:9

E para finalizar, ainda há um versículo que acho muito interessante, que diz o seguinte:

“Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” 1 Coríntios 15:19

Ou seja, as promessas teológicas de abundância, vitória, vida plena, são reservadas não a esta vida, mas à vindoura, para aqueles que acreditam nisto! Logo, aqui nesta terra o pau vai quebrar, a jiripoca vai piar e a bicho vai pegar! A humanidade precisa lidar com a dor porque, por meio dela é que se torna possível ter um contraponto para a utopia da felicidade abundante: se não houve tristeza, como saberíamos que existe felicidade?

Logo...
Não tenha preconceitos, se você identificar que existem questões emocionais que não estão muito bem em você, como dificuldades de relacionamento, ou um humor deprimido, problemas com ansiedade ou várias outras dificuldades, pense que não será com oração que você vai resolver isso!

Você pode ter alguém com quem se aconselhar em relação às suas questões espirituais, isso faz parte da convivência em uma comunidade religiosa, mas é importante que você procure um profissional que entende de coisas da mente também. Afinal de contas, já vimos que precisamos separar o espiritual do psicológico para aprender a lidar com o sofrimento.

Por tais coisas apresentadas é que preciso dizer: um cristão sofre porque é humano como qualquer outro, não possui um super poder só porque acredita em Deus... acreditar nisso é tolice, inocência ou arrogância. Mas assim como, para qualquer outra pessoa no mundo, a psicologia também está a serviço daqueles que acreditam em um Deus... você não precisa renunciar à sua fé para buscar apoio de um profissional de psicologia.

Lembre-se do que foi escrito:
“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.
E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” Romanos 12:1,2 (Grifos meus).
O culto à Deus é racional, e depende da renovação constante do seu entendimento, então, procure um psicólogo!

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, psicólogo (CRP 09/9447) graduado pela PUC Goiás (Brasil), mestre em psicologia pela UFG. Doutorando em Psicologia Clínica e Cultura pela UnB.

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