Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

A psicologia e os fanáticos por abordagens



Quanto mais velho eu vou ficando nesse negócio de psicologia, mais rabugento me torno, penso eu... digo isto porque a cada vez que um psicólogo, ou estudante de psicologia, diz que a “minha abordagem é a única verdadeira” eu reviro os olhos me recordando dos discursos das seitas religiosas que pregam que a salvação é única e exclusiva daquele grupo, pois a VERDADE, em letras maiúsculas e garrafais não existe fora daquele povo ungido, escolhido por Deus para propagar uma mensagem única ao povo...

Há uma diferença fundamental entre fé e fanatismo, que é o grau de abertura afetiva e cognitiva de um indivíduo diante da possibilidade do erro. E porque estou falando disso?! Porque muitas vezes, a ciência se trata de um ato de fé. Em 1916, por exemplo, Einstein previu em suas teorias a existência de ondas gravitacionais, coisa que naquela época ele não tinha a menor condição empírica de provar, e que só foram detectadas um século depois, em 2016... a ciência muitas vezes se baseia em premissas que são improváveis naquele momento, mas que são necessárias para a manutenção de sua coerência. Isso é mais comum do que se imagina!

O próprio empirismo é baseado em duas premissas fundamentais: 1) Só são aceitas como verdades eventos/fenômenos autoevidentes; 2) Só são aceitos como verdades eventos/fenômenos passíveis de verificação por meio dos órgãos sensoriais. Mas o caso é que essas duas premissas não são nem autoevidentes, nem passíveis de experimentação. Elas sobrevivem por causa da lógica! A boa e velha lógica que muitas vezes é solapada por professores sugadores de cérebro e produtores de discípulos que são reprodutores de suas premissas afetivas.

Daí é quando eu, que já sou vesgo, reviro ainda mais os olhos para quando ouço um “psicologia baseada em evidências”... Evidências pra quem, cara pálida? Basta pegar os estudos que versam sobre CODIFICAÇÃO INDIFERENCIADA que foram tratados por gênios como Humberto Maturana, Ernst Von Glasersfeld e Heinz Von Foerster para ver que muitas das nossas “evidências” podem ser facilmente contestadas como criações de nossos próprios cérebros. Não isso não se trata de uma viagem como se estivéssemos em um filme Matrix, em que produzimos tudo ao nosso redor, mas se trata da boa e simples lógica que sempre existiu para questionar nossos fundamentos.

Edgar Morin tem uma citação que eu acho fantástica: “toda lógica que tenta encerrar o mundo em seus conceitos é uma abstração demente”. A ciência é a filha da filosofia, e dela subsiste. A questão das “evidências” não é tão evidente quanto parece.

Então, em uma ciência altamente fragmentada, com pelo menos uns 500 tipos de abordagens teóricas que estão diuturnamente trabalhando para construir uma viabilidade explicativa sobre o humano, a sua abordagem, linda e maravilha, é a única e perfeita existente, soberana sobre as outras, o alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado. Abordagem é um ponto de partida, não o caminho todo.

Não estou dizendo que não se deve ter uma abordagem, o que eu estou dizendo é que essa sanha toda de ser ÚNICA E EXCLUSIVA em uma ciência INTERPRETATIVA como é a psicologia, não parece ser coisa saudável. A psicologia é uma ciência híbrida, ela tem traços de ciências da natureza, mas não é uma ciência da natureza, tem traços de ciência social, mas não é uma ciência social, tem traços de uma ciência exata, mas não é uma ciência exata, tem traços de ser uma ciência da saúde, mas não é uma ciência da saúde... “mas o que ela é então, Murillo?” Ela é tudo isto! Nós fomos treinados para simplificar processos complexos, e tentar encontrar um princípio explicativo uno para tudo, e bugamos nossa cabeça quando encontramos fenômenos complexos (daqueles que são multicausais e multifacetados)... Só precisamos melhorar isto, entender de uma vez por todas que a psicologia não cabe em uma só caixinha, ela é uma fábrica de caixas, e cada um escolhe aquela que julgar mais conveniente e se apega a ela.

Isso significa que a psicologia é uma ciência complexa, detentora de uma lógica e/e, do terceiro incluído, e não ou/ou.

Fim.

 

P.S.: Este texto não precisa de um final espetacular.

 

Indicações de leitura pra entender essa bagaça aí acima: “O método 4: as ideias” de Edgar Morin.

Psicólogo (CRP 09/9447) graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Brasil), com formação em terapia de casais e famílias pela Universidad Católica Del Norte (Chile). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Doutorando em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (Brasil). Possui formações pela Fundación Botín (Espanha), Brow University e Harvard University (EUA). Diretor do Instituto Psicologia Goiânia.

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