Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

domingo, 16 de dezembro de 2018

A psicologia entre Jesus e o pé de goiaba


Essa semana ‘bombou’ nas redes sociais um vídeo em que a futura ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, relata uma experiência religiosa que teve na infância... segundo a futura ministra, na época, subiu em um pé de goiaba com a intenção de tomar veneno para se matar, mas que naquele momento lhe apareceu Jesus, subiu no pé de goiaba e a convenceu de não fazer aquilo.

Apesar de ser um relato comovente, pelo fato de uma criança estar em crise, vítima de um histórico de abusos, ter passado por uma experiência sofrida de conversão, há certo fundo cômico, que pelo que vi no vídeo do relato da ministra, até ela mesma parece explorar em sua pregação... tudo ok, se a coisa tivesse parado por aí.

A reação das redes foi imperdoável, acusando a ministra de “louca” ou outras coisas do gênero, e tudo isso, com o pano de fundo desta estar atrelada à figura polêmica do futuro presidente da república – o que serviu de munição para grupos políticos falarem contra a mesma. Eu não quero, e não vou entrar na dinâmica das narrativas políticas, não é a intenção deste texto.

Há milênios existe no mundo um fenômeno chamado de Teofania, que é quando indivíduos relatam a aparição da divindade ou de figuras correlatas (santos, anjos, etc) – na Grécia Antiga, quando os oráculos viam os deuses do Olimpo; entre os Hebreus, com Moisés no deserto por exemplo, em uma fenda sob uma rocha (Êxodo 33); com Juan Diego, em 1531, ao ver a virgem de Guadalupe na Cidade do México; as aparições da virgem de Fátima, em 1917, que reuniram mais de 50 mil pessoas em vigília... enfim, são vários os relatos.

Estes fenômenos, por diversas vezes, chamaram a atenção da psicologia: Wundt, o pai da psicologia experimental e da psicologia moderna foi um dos primeiros estudiosos da psicologia da religião; William James, pai da psicologia estadunidense, precursor do behaviorismo e professor de Harvard, tinha grande interesse por este e outros tipos de fenômenos, chegando a escrever um enorme tratado sobre o assunto (Varietes of religious experience)... O problema é que, quando a psicologia chega no Brasil, ainda entranhada com o positivismo biomédico, passa a estudar os fenômenos religiosos sob uma ótica de racismo científico, ao condenar o espiritismo afrobrasileiro à uma lógica psicopatológica (Masiero, 2002).

Os pretos e pobres brasileiros, que freqüentavam os terreiros de candomblé, eram vistos como loucos morais que precisavam ser domesticados e catequizados pela religião cristã... mas como o mundo dá muitas voltas... a psicologia ficou cada vez mais laica, e o estudo da religião passou a ser relegado à periferia deste campo de conhecimento (até hoje, olham torto para quem estuda psicologia da religião, acham que é por interesses religiosos, etc). E o feitiço virou contra o feiticeiro: qualquer manifestação religiosa passou a ser vista como um desvio da razão humana, como um produto socialmente feito pela fraqueza do indivíduo em lidar com a dura realidade da vida.

Ou seja, a experiência religiosa foi vista como fruto da “fraqueza humana”, e às vezes, cria-se que eram casos onde os sujeitos estavam doentes – daí a religiosidade virou domínio da psicopatologia. Foram anos e anos até que um conjunto de pesquisadores brasileiros começassem a desmistificar tal questão, ou mudar a forma de se olhar para o fenômeno religioso, dentre os quais cito Jorge Ponciano Ribeiro (2009), Adriano Furtado de Holanda (Holanda, 2015), Marta Helena de Freitas (Esperândio & Freitas, 2017), Valdemar Augusto Angerami-Camon (2008), Paulo Dalgalarrondo (2008) e Maurício da Silva Neubern (2013).

O que eu quero dizer com isso: é preciso olhar com mais empatia para o fenômeno religioso dentro da psicologia. Não por se acreditar ou não nele, mas simplesmente pelo fato de que precisamos ser politicamente coerentes. Vivemos falando em “aceitar a experiência do outro”, ou mesmo em fazer a “suspensão dos nossos preconceitos”, dentre inúmeras outras coisas que nos colocam em outro espaço para analisar as vivências do outro sem julgamentos morais ou preconceitos. Infelizmente não foi isso que vi nos últimos dias.

Simplesmente porque temos que encarar o fato que o “psicólogo médio” brasileiro conhece muito pouco ou quase nada sobre o estudo do fenômeno religioso, ou mesmo nem faz ideia de conceitos básicos às ciências da religião, como a noção de numinoso.

Enfim, precisamos olhar com mais empatia para a vivência religiosa dos indivíduos, para que não cometamos o equívoco histórico do racismo científico e da eugenia novamente, pois por mais estranho que possa parecer escutar que “Jesus subiu num pé de goiaba”, esta experiência parece ter sido uma fonte de integração da personalidade de uma criança que estava em uma viagem sem volta de desintegração da mesma... Precisamos aprender a colocar a psicologia entre Jesus e este pé de goiaba, para não dar explicações simplistas para fenômenos tão complexos como os da vivência religiosa.


Referências
Angerami-Camon, V. A. (2008). Psicologia e religião. São Paulo: Cengage Learning.

Dalgalarrondo, P. (2008). Religião, psicopatologia e saúde mental. Porto Alegre: Artmed.

Esperândio, M. R., & Freitas, M. H. (Orgs.)0 (2017). Psicologia da religião no Brasil. Curitiba: Juruá.

Holanda, A. F. (2015). Psicologia, religiosidade e fenomenologia (2ª Ed. Rev. Atual.). Campinas: Alínea.

Masiero, A. L. (2002). "Psicologia das raças" e religiosidade no Brasil: uma intersecção histórica. Psicologia: Ciência e Profissão22(1), 66-79.

Neubern, M. S. (2013). Psicoterapia e espiritualidade. Belo Horizonte: Diamante.

Ribeiro, J. P. (2009). Holismo, ecologia e espiritualidade: caminhos de uma gestalt plena. São Paulo: Summus.

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