Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

sexta-feira, 3 de março de 2017

Psicologia da Alquimia: como transformar lixo em ouro

Confesso que a descrença no bom senso coletivo tem me desanimado nos últimos dias, por isso estou começando a aderir a uma nova de espécie de "Psicologia da Zoeira", que consiste em uma mescla de sarcasmo com princípios psicológicos para ver se é possível gerar um pouco de processo reflexivo neste povo tão calejado com modismos seculares.

Nós temos a cultura de ter uma gente muito crédula, e isso em si não é problema, mas quando somamos este fato com o de que temos um baixíssimo índice educacional a coisa desanda: jogar na Mega Sena é a coisa mais inofensiva para um povo que acredita em Teologia da Prosperidade, "Pirâmides Financeiras" ou que investiu em Avestruz sem nunca ter visto um bicho destes no pasto, ou mesmo um bom bife deste animal sendo vendido num açougue qualquer.

Pois enquanto psicólogo, tenho um compromisso social com a verdade e com a crítica, tendo que tecer comentários, doa em quem doer, então por isso decidi fazer uma coletânea de questões interessantes que tenho observando, e estou lançando hoje para vocês, em primeira mão, a "Psicologia da Alquimia" (se você não entendeu, isso foi zoeira, só para deixar claro). E a propósito, este texto será mais ácido do que chupar limão azedo, então, vou ser bem malvadão, não repare, por favor.

Um dos primeiros princípios da Psicologia da Alquimia é afirmar que o que você está fazendo é novo, único ou maior. Se você está usando estes três termos você já está no caminho certo! Não importa se você está vendendo sacolé, afirme que seu sacolé foi feito por anjos cantores do deserto da Namíbia, que isso agrega valor ao seu produto. Esse tipo de coisa é que nos ajuda no movimento de criação da "Psicologia Gourmet", uma outra teoria que estou desenvolvendo. Algumas "igrejas", por exemplo, fazem isso, pegam uma água de torneira, colocam num pote bonitinho e falam que é a água abençoada do Rio do Polo Sul... Não preciso nem falar o resultado disso né!

A segunda base da Psicologia da Alquimia é uma coisa que eu chamo de Fenomenologia Reversa, e quer dizer que "A aparência é mais importante que a existência". Ou seja,  você pode ser o maior José Roela da Silva da cidade, mas se você for um José Roela da Silva esperto, andando de carrão (mesmo que seja emprestado), com um terno (mesmo que seja alugado), com um gel no cabelo (afinal de coisas, temos certa tendência a admirar coisas brilhantes) e souber falar algumas palavras bonitas (isso se aprende com treino), bingo! Ou seja, não importa se você é muito ruim em fazer algo, mas se você for "o melhor em ser ruim" não tem como não dar certo, mesmo que isso gere alguma frustração nos seus clientes.

O terceiro ponto importante é: Use nomes em Inglês ou Francês sempre que possível! Mesmo que esses nomes tenham correspondentes exatos na língua portuguesa. Vou fazer um parentese aqui (e sair um pouco do sarcasmo): existem termos e ideias que só podem ser expressados em outra língua, como por exemplo "Saudade" (Português), ou os termos "Eros" (Amor-Sexual), "Phileo" (Amor - Amistoso) e "Ágape" (Amor - Puro) do grego, que todos querem dizer amor, mas expressam significados diferentes. Mas daí a usar as palavras "Dashboard" (Painel de Controle), "Staff" (Pessoal) e "Budget" (Orçamento) parece ser mais para forçar a barra para usar "termos chiques"... dá um ar de mais autoridade, sabe!

O quarto ponto, e este é importante: brasileiro geralmente tem uma certa "tara" com figura de autoridade, por isso sempre vale relembrar o Princípio do Argumentum Ad Verecundiam (do latin "Argumento de Autoridade"), que é o seguinte. "Venha conhecer a famosa técnica do Dr. João das Couves, ele que é médico formado em Harvard, astronauta pela Nasa, jogador de futebol do Real Madri, morreu e ressuscitou três vezes e viajou ao céu cinco vezes". Geralmente, o Dr. João das Couves vai citar que "pesquisas comprovam meus estudos, dizendo que o melhor método de todas as galáxias", mas nunca vai mostrar quais são estas pesquisas. Também tem a versão do "eu fiz essa descoberta fantástica", mas nunca fala como, ou nunca mostrou em qual pesquisa séria que ele descobriu tal fato, muito menos submeteu seus dados à análise de pares científicos, simplesmente diz "eu fiz essa coisa maravilhosa!" (Uai, que "phodda!").

E para reforçar, e por penúltimo, coloque um prefixo (sufixo também vale) de impacto, ou siglas no que você vai fazer: os prefixos da moda, geralmente, são "neuro...", "Coaching...", "Feedback...", "Terapia de...". Se você colocar os prefixo, não importa se você está prometendo uma "Terapia Ufológica Ectoplasmática" ou um "Neurocoaching Business Style", já é 50% de sucesso... A base científica... não se preocupe, ninguém quer saber se o que você está fazendo é amparado por dados, evidências ou se é bem amarrado filosoficamente.

E por último, onde todos os pontos devem desembocar, destaco a necessidade de se impressionar as pessoas a todo e qualquer custo... Ao se apresentar, se for em público, contrate pombas brancas que voam em círculos, ou uma chuva de confetes folheados a ouro, ou mesmo uma cascata de fogos de artifício... ao falar, demonstre domínio sobre o assunto, mesmo que você esteja discutindo sobre a profundidade de poças de água no asfalto.

Mas para terminar este texto, vou abandonar um pouco o sarcasmo, e dizer o seguinte: os pontos acima, na verdade, são muito utilizados até mesmo em campanhas de marketing, e isso não tem nada de errado. O problema é que o marketing diz respeito à forma, e para ele ser justo, deve corresponder a um bom conteúdo. Como dizia minha avó "por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento" não pode fazer parte da psicologia - podemos e devemos ter sim um bom marketing, mas temos, por obrigação ética, que entregar conteúdo de qualidade para respaldar aquilo que estamos prometendo.

No fim, este texto é um alerta para você, psicólogo ou consumidor de psicologia: se você não prestar atenção, pode estar comprando porcaria e pensando ter encontrado uma mina de ouro. Mas para que é importante escrever um texto como este? Para ajudar na reflexão sobre a qualidade do que estamos consumindo.

Um "good bye procêis"!
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Imagem: Extraída do Google Imagens. 


Sobre o autor

Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Brasil), mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (EUA) e Fundación Botín (Espanha). Diretor do Projeto Psicologia Goiânia... Ah, e para não parecer um "Verecundiam"... clica aqui que você pode verificar o meu Lattes... =D

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