Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Psicólogos e suas baboseiras

Esta semana, lendo os comentários de uma matéria jornalística no Facebook, me deparei com o seguinte comentário: “daqui a pouco vem algum psicólogo falar alguma baboseira”... ri! Mas talvez devesse ter chorado, ou ficado com raiva. Mas ri, talvez por um sinal de abstração ou forma de sublimar a raiva passageira de ver comentários depreciativos a respeito de algo que é tão caro para mim: a psicologia.

Mas o rapaz que fez este comentário não estava de todo errado, e lhes conto por que penso isto. Nos últimos anos tenho acompanhado o trabalho de algumas dezenas de psicólogos, muitos deles na área clínica, e tenho visto a grande dificuldade que alguns possuem de ter um pensamento e expressarem-se de forma objetiva, concisa e apresentarem argumentos coerentes com uma lógica clara diante de questões que envolvem a sua profissão. Como isso estava me preocupando!

Conversando com outros dois colegas psicólogos, muito talentosos (diga-se de passagem), durante a semana, cheguei a conclusão de que estes também tinham as mesmas impressões que eu tenho: falta assertividade na atuação de muitos psicólogos.

O que isso quer dizer? Vou dar vários exemplos. Tenho conhecido alguns colegas que tem problemas sérios em oferecer feedback terapêutico, ou seja, possuem uma deficiência tremenda na habilidade de fazer pontuações terapêuticas. Alguns deles simplesmente ocupam o papel de contentores de catarse, ou seja, simplesmente sentam na frente do cliente e os escutam por uma hora a fio, ou ficam observando-os chorarem compulsivamente, sem entregar a menor devolutiva para o cliente. Outros falam, falam, falam e não dizem nada.

Sei que existem sessões onde é necessário conter a ansiedade do cliente, em que ele demanda às vezes todo o tempo com uma fala acelerada ou ansiosa, mas também existem momentos em que o terapeuta deve fazer pontuações a respeito da fala, em sua forma ou conteúdo, das expressões, da crença ou da organização psicológica do sujeito e não o faz, por alguns motivos, e vou listar alguns:

Ele tem medo, simplesmente, e este pode ser de estar errado em sua pontuação, ou de ser rechaçado pelo cliente. Mas em muitos momentos o psicólogo, quando está nesta situação, tem medo de ser julgado, e este é um grande problema, que vai envolver muita autoanálise e/ou terapia por parte do profissional. Assumir a cadeira de psicoterapeuta é assumir o risco do erro, e digo mais, é lidar com o erro em toda sessão, pois nunca sabemos o que virá do cliente e devemos assumir o lugar do não saber, pois no final das contas não temos a verdade absoluta sobre o comportamento/vida do sujeito que está em nossa frente, só podemos nos certificar de fazer o nosso melhor para disparar um processo reflexivo tão eficaz quanto possível;

Ele não aprendeu. Sim, muitos estudantes de psicologia saem da faculdade com centenas de horas de aula sobre escuta, atenção, empatia, mas quando têm que executar e devolver algo de construtivo ao cliente, travam, porque simplesmente não aprenderam os métodos de análise de discurso, análise de conteúdo, análise de núcleo de significação, ou qualquer coisa que se aproxime de uma hermenêutica (aliás, a maioria não sabe o que é hermenêutica – se você é uma dessas pessoas, tire dois minutinhos para ir dar uma Googlada, voltar e terminar este texto, você não vai se arrepender). Em terapia não basta somente receber, é preciso entregar!

O psicólogo pensa, de forma equivocada, que estará influenciando o cliente: alguns terapeutas acreditam que se fizerem pontuações, perguntas ou mesmo observações a respeito de questões que lhe chamaram atenção, estarão influenciando o cliente. Tenho uma notícia para vocês: psicoterapia não é laissez-faire! Você não pode simplesmente deixar com que ela siga descontroladamente sem objetivo, isso faz com que se torne muito difícil mensurar os resultados ou mesmo apontar um caminho objetivo de mudança na vida de um sujeito que, muitas vezes, já está bastante desnorteado. Respeito as teorias que dizem que não se deve influenciar o cliente, é claro, e acredito nelas, mas também acredito que o cliente, no processo terapêutico não é um simples boneco de posto que se agita para onde o vento sopra! É preciso empoderá-lo para que este, inclusive, questione o terapeuta, discorde, pois são nestas tensões em que se estabelece um clima de reflexão sobre os sentimentos/pensamentos/desejos do sujeito. A herança das epistemologias clássicas na psicologia ainda faz com que muitos profissionais tenham medo de estarem interferindo na vontade do cliente, mas eu tenho uma novidade pra você, meu amigo – você está interferindo na vontade/pensamento/afeto daquele sujeito o tempo todo, assim como ele o faz contigo, pois você é outro sujeito em contato com ele, e é nesta interação que se constroem sentidos e significados! Não é possível ser neutro, pois até a sua pretensa neutralidade é entendida e recebida pelo cliente de uma forma nada neutra (já é extremamente questionável a questão da neutralidade nas relações sujeito/objeto, imagine nas relações sujeito/sujeito). Note que não estou dizendo que o terapeuta “deve dizer ao cliente o que fazer”, mas que este não precisa ser uma árvore plantada no consultório. Quem define o que fica e o que sai da terapia é o cliente, ele é o fator ativo na relação, o psicólogo é o gerador do processo reflexivo, então, quem conduz o processo é o sujeito que dele necessita e que a ele constrói, conforme ele se permite.

Outro grande problema é quando o psicólogo somente repete as palavras do cliente com uma entonação diferente, ou só devolve uma pergunta vaga. Essa é muito comum, e me desespera bastante! Acredito que isto se dá devido a uma grande falha interpretativa da capacidade de fazer síntese. Tem gente que acha que fazer síntese é somente devolver a afirmação em formato de pergunta, mas NÃO! NÃO, POR FAVOR, NÃO! Fazer síntese é encontrar a tese e a antítese de uma questão e colocá-las para brigar! Bingo! Veja o que sobra dessa briga de galos e entregue ao cliente, veja o que ele faz com o produto. Será encantador!



Outro exemplo de falta de assertividade é quando o terapeuta fala coisas desconexas, não consegue concluir um silogismo (essa também vale uma googlada, vai lá, até eu googlei pra me relembrar e ter certeza do que se tratava... hehehehe), apresentar uma relação causa/efeito linear ou circular, ou mesmo tem problemas de fala. Você trabalha com a linguagem, a linguagem é um conjunto de signos que constroem as relações sociais que por sua vez constroem as relações psicológicas, que por sua vez reconstroem as relações sociais! Brow, adivinhe onde você terá que intervir na maioria das vezes?! Bingo novamente, na linguagem! Na clínica, muitas vezes, a linguagem é o canal de materialização de coisas imateriais, como sentimentos, pensamentos, desejos e crenças, e você precisa igualmente manejar este instrumento. Então, falar a linguagem do cliente de forma clara, concisa e objetiva é importante. Neste ponto também é importante destacar a necessidade de se tomar cuidado com a prolixidade, pois em muitos momentos ela pode ser importante, em outros, pode ser uma catástrofe.

Esta é a penúltima: alguns psicólogos, por alguma delicadeza, descuido ou problema pessoal, acabam projetando excessivamente suas questões psicológicas nos clientes. É o caso de uma terapeuta de casais que eu conheci que, ao realizar sessões separadas entre esposo e esposa, contava toda a vida pessoal para a cliente, chorava com ela, e dava “conselhos” para que ela se separasse, ao passo que quando atendia o homem, fazia uma postura mais distante, fria e até impassível. Isso é outra coisa que vai ter que levar o profissional à terapia e supervisão! Não há nada demais em se emocionar com os seus clientes, em muitos momentos isso até fortalece a relação, o que não se pode é transformar o setting terapêutico em um lugar de “conversa de compadre/comadre”. Psicólogo está ali como um cientista, como um profissional, e não como um amigo/conselheiro! Então, que haja como tal.

Por último, alguns psicólogos fogem do feedback, ou não dão conta de trabalhar as demandas porque simplesmente fogem das perguntas de seus clientes: muitas vezes o cliente quer saber o porque está acontecendo X-Comportamento em sua vida, mas o psicólogo insiste em conduzi-lo da seguinte forma “não precisamos saber do porque, mas sim do ‘como’”. Oras, em muitos momentos é sim, preciso tirar a neura do cliente em querer saber de forma obsessiva o porquê das coisas, mas também pode ser necessário desvendar o processo de constituição do problema, isso leva também ao por que. Às vezes será preciso indagar-se não somente o como, ou o porque, mas o quê, onde, quando, , quanto custa.

Algumas questões que eu tenho aprendido com a Teoria da Complexidade e desenvolvido no meu fazer enquanto psicoterapeuta são as seguintes: o psicólogo pode e deve fazer sínteses daquilo que é trazido pelo cliente sempre que possível; o psicólogo também deve apontar as contradições do sujeito, pois estas fazem parte da constituição de todos, e a reflexão sobre este ponto é um poderoso fator de desenvolvimento e gerador de insights terapêuticos; o psicólogo deve confrontar crenças disfuncionais do sujeito, ainda que de forma sutil, mas mostrar que nem tudo o que o cliente acredita pode ter fato com a realidade (isso é mais do que necessário, especificamente para aqueles que têm problemas com narcisismo); o psicólogo deve estar aberto ao que o cliente trouxer, e que este não deve fazer de tudo para enfiar o cliente dentro de técnicas específicas, mas estar sensível para o que este demandar, estando sempre amparado por uma forte consciência de seu referencial teórico.

Enfim, vou deixar algumas dessas reflexões para depois, porque vão alongar demais o texto, mas queria mostrar que, muitas vezes e infelizmente, temos presenciado situações em que os psicólogos, especialmente os clínicos, precisam aprender a trabalhar com maior assertividade, maior consciência de sua posição teórica e prática, e passarem a oferecer, de fato, algo útil para aqueles que o procuram, não simplesmente uma chuva no molhado, uma saudação à mandioca ou um show de tautologias (essa foi a última palavra difícil da noite, gente, prometo, beijo no coração de vocês!).

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Imagens: Extraídas do Google imagens

Sobre o autor:


Murillo Rodrigues dos Santos, é psicólogo (CRP 09/9447) graduado pela PUC Goiás (Brasil), com período sanduíche e formação em Terapia de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (EUA) e Fundación Botín (Espanha). Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Psicólogo clínico, professor, diretor do Projeto “Psicologia Goiânia”, Conselheiro do CRP-09 (IX Plenário), e está planejando seu projeto de doutoramento em Psicologia.

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