Psicólogo Murillo Rodrigues

Psicólogo (CRP 09/9447)| Professor | Pesquisador

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A coachificação da impressionabilidade humana

Um estudo recente feito pelo Dr. John Peterson, da Universidade de Harvard, descobriu que se pode enquadrar qualquer ser humano “mediano” em 4 subtipos fundamentais, que são como arquétipos transculturais e biopsicossociais, definindo a sua personalidade com 97,5% de probabilidade de acerto. O estudo é simples, e vou reproduzi-lo aqui com você, basta que você escolha uma das seguintes formas:

1.       Quadrado
2.       Triângulo
3.       Círculo
4.       Retângulo
Agora escolha uma cor:
1.       Azul
2.       Vermelho

Escolhas feitas, basta cruzar os resultados:

1.       QUADRADO: Você é uma pessoa que tem constância nas atitudes, sólido, que pode esperar sucesso profissional, ainda que custe algum tempo de aprendizado. Você inspira confiança por onde passa, e não é surpresa que as pessoas confiem em você para contar os seus segredos e digam que você é um bom conselheiro. Você ainda precisa aprender a escutar um pouco melhor.
2.       TRIÂNGULO: Assim como a forma de um triângulo isósceles, existe um lado em você mais desenvolvido que os demais, uma habilidade que ainda precisa ser melhor explorada e que talvez ainda precise ser trabalhada pela busca do equilíbrio. Apesar de ter um defeito que te incomode bastante, se trabalhado da forma adequada você tenderá à liderança.
3.       CÍCRULO: Você é uma pessoa que tende ao infinito, seja em pensamentos, emoções ou palavras. Você às vezes pode se sentir confuso e sem saber o caminho para alguns lados da vida, mas isso se deve à intensidade de suas experiências com o mundo. Esta intensidade é um lado muito positivo, mas também pode ser negativo. Tendo as condições adequadas você pode chegar bem longe e mais rápido que os demais, com a sua capacidade de transitar entre pessoas, ideias e ações.
4.       RETÂNGULO: Você pode até parecer-se com os demais, mas na verdade é muito maior do que as pessoas enxergam, e você sabe disso! Pode ainda não ter descoberto todo o seu potencial, mas sua capacidade de resistência e alcance é muito maior do que o convencional. Justamente por isso é que às vezes você acaba suportando muita coisa em suas costas, mas mesmo assim não perde a oportunidade para fazer as coisas acontecerem do seu jeito.

As cores, por sua vez, identificam a disposição da pessoa no mundo:

1.       AZUL: Você é uma pessoa mais calma, que tende à contemplação, geralmente pensa muito antes de fazer as coisas, a não ser que esteja cansado ou estressado. Possui tendências a ser um pouco conservador em uns aspectos, mas em outros é bem a frente de seu tempo.
2.       VERMELHO: Você é mais alto astral, corporal, coloca as coisas para frente, para funcionar. Você tem maior tendência a fazer as coisas acontecerem, com pautas progressistas (por mais que pareça ser “careta” em alguns momentos com alguns temas). “Lá no fundo” tem um pouco de “revolucionáro”, mas sempre com muita consciência social.

Se você não se identificou com nenhuma das formas/cores que escolheu, você provavelmente se enquadra nos 2,5% de pessoas as quais a avaliação não alcança. Agora se você sente que se enquadrou em todos os aspectos, ou em grande parte deles, você faz parte dos 100% influenciáveis que geralmente acreditam em qualquer besteira escrita por aí, que geralmente utiliza o nome de uma universidade ou instituto “internacional renomado”, com o nome de um Doutor que você nunca ouviu falar antes (e que no caso deste texto nem existe), com uma pesquisa que não apresenta a fonte científica (em qual revista científica está publicado mesmo este estudo?) e que mistura um monte de palavras genéricas, abstratas e aleatórias com a intenção de pegar as pessoas sugestionáveis para verdadeiras “minas de ouro comerciais”.

Alguns casos são tão esdrúxulos que parece aquela pessoa que saiu para caçar pombos com uma metralhadora: ela vai derrubar tudo o que estiver acima de sua cabeça, não importa se pombos, urubus ou um avião monomotor leve. Parece brincadeira minha, mas não é!

Nos últimos dias eu tenho visto se proliferar uma onde de “coaching” de tudo quanto há: é executive coach, profesional coach, life coach, coaching de vendas, business coach, international coach, coaching para crianças, neurocoaching, Advanced Coaching, Coaching Express, Web Coaching, Master Coaching, Coaching de Alta Performance, etc... Isso se tornou um negócio altamente lucrativo, haja visto que o tal qual curso geralmente é feito em “módulos” que não custam menos do que algumas centenas ou milhares de reais.

A coisa se tornou tão trivial neste meio, que em muitas propostas cria-se uma verdadeira “pirâmide” no pior modelo de marketing multinível possível: “eu preciso me tornar coach de coaches para ter algum sucesso na minha carreira, e para isso eu preciso passar a vender o meu produto”. E assim cria-se um verdadeiro frisson com esta prática que, na maioria das vezes, se torna uma verdadeira salada que mistura psicologia positiva com pouca base teórica, confissão positiva, pentecostalismo popular em sua versão secular, algum conhecimento de administração, um pouco de autoajuda e uma baita pitada de sugestionabilidade.

Não estou acusando os “coachs” de desonestidade, de forma alguma, tenho um monte de amigos (e muitos deles psicólogos) que se intitulam “coach” e que fazem um bom trabalho, mas estou criticando a lógica produtivista pirateada barata em que este modelo está se baseando. Não vejo problema nenhum em ter algum tipo de acompanhamento de profissionais para desenvolvimento pessoal em qualquer área (óbvio que não! Formei-me enquanto psicólogo para isso!), o problema está em uma prática descolada da realidade, reificada, sincrética e que muitas vezes trabalha mais no emocional de uma pessoa sem fornecer um trabalho cauteloso suficiente para lidar com as questões de personalidade, desenvolvimento humano, sociabilidade, e cosmovisão do sujeito.

Ser “coach” sem ter o mínimo de formação em psicologia da personalidade, psicologia social, psicologia do desenvolvimento, matrizes do pensamento psicológico, neuropsicologia é no mínimo perigoso! Como lidar com uma pessoa que pode entrar em um processo psicológico deletério por conta de práticas profissionais desajustadas?! Enquanto psicólogo me vejo na obrigação de advertir meus pares: não há nada de errado em almejar ser coaching, mas precisamos promover uma profunda reflexão sobre o significado disto e sobre a forma produtivista que isto está tomando, porque muitas vezes, senhoras e senhores, o tal do coaching, na mão de quem não tem a mínima formação para isso, tem sido igual à fábula acima do Dr. Perterson: uma verdadeira história para boi dormir.

Imagem: Extraída do Google Imagens

Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, psicólogo (CRP 09/9447) pela PUC Goiás (BRA), mestre em psicologia pela UFG (BRA). Possui aperfeiçoamento profissional pela Brown University (EUA) e Fundación Botín (ESP).

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